" ZYD 470... RÁDIO FLUMINENSE FM...94,9 MHZ... RIO DE JANEIRO... "
MALDITA !
“A nova rádio fluminense fm é mais uma entre 16 fm’s do Rio, mas certamente será uma rádio absolutamente especial. A partir de agora, você terá contato com sons que marcaram época e com sons que você nunca ouviu. Rádio Fluminense Fm, 94,9 MHz, Maldita!“
Em 1º de Março de 1982, nascia a Rádio Fluminense FM, a “Maldita”, inteiramente voltada para o Rock, Blues e Alternativo. Vale lembrar que sua finalidade foi ser diferente das FMs de hit-parade, não apenas pelo fato de tocar bandas de Rock, mas também ter locução totalmente feminina, linguagem, programação, filosofia e mentalidade que nada tinham a ver com as chamadas "rádios jovens" da época.
A ideia de uma rádio segmentada e rock’n’roll veio de uma conversa entre Luiz Antônio Mello e o jornalista Samuel Wainer Filho. Samuca, apelido de Wainer, não pode dar prosseguimento a ideia porque na época já estava comprometido com outros projetos. Coube a Mello e aos produtores Sergio Vasconcellos e Amaury Santos executarem o projeto. O trio, então com vinte e poucos anos, era frequentador de sebos e lojas de discos, acumulador de fita K-7 e fã de rock, características que explicam a dedicação ao projeto e a criação de um produto que atravessou gerações e mudou, de certa forma, as regras impostas pelo mercado da música na época.
A rádio, no início de sua existência, tocava poucas bandas novas. Ela precisava se estabilizar e havia um marasmo no rock nacional da época. Ainda assim, a “Maldita” começou a tocar a coletânea "Rock Voador", parceria entre a WEA e o Circo Voador que lançou nomes como Celso Blues Boy, Vid & Sangue Azul e Kid Abelha, além de demos de Lobão, Paralamas do Sucesso e Blitz.
A “Maldita” lançou um produto novo chamado fita-demo. As fitas-demo serviam para dar a amostra do talento de cada banda, só que, graças à Fluminense FM, acabaram virando obras primas. Destacam-se as fitas-demo dos grupos Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Plebe Rude, Lado B, Escola de Escândalo, Saara Saara, Urge, Picassos Falsos, Finis Africae, entres outros. As fitas-demo tinham qualidade técnica sofrível, mas em contrapartida seus sons eram mais crus, espontâneos e bem melhores do que as versões em LP de algumas bandas.
A programação da “Maldita” era brilhante. Já em 1984 a rádio acelerava nas novidades, tocando as novas tendências da época. Inúmeros são os motivos para Rádio Fluminense FM ter se tornado inesquecível. A emissora teve papel fundamental na formação da história do rock nacional, além de ter sido pioneira. A Maldita foi a primeira rádio a colocar no ar um time inteiramente feminino para fazer a locução de seus programas. “Já que a programação era pesada, precisávamos de vozes suaves para anunciá-la”, recorda Luiz Antônio Mello.
Ao romper com o esquema de locutores masculinos, a Fluminense FM escalou um time com fala mais sóbria e tranquila, sem gírias e, especialmente, sem “vícios radiofônicos” como falar em cima das músicas. Como ressalta, com razão, a locutora Monika Venerabile, em matéria publicada no Jornal O Fluminense em 2015, a RádioFluminense FM “criou uma nova geração de garotas que falavam no rádio, porque, até então, só meninas com voz sexy, tipo rádio de motel, faziam locução”. Além de Monikinha, apelido que ganhou dos ouvintes, outras mulheres passaram a ocupar o microfone da emissora inaugurada em 1º de março de 1982.
Foi a voz da locutora Selma Boiron, na época ainda dando seus primeiros passos na profissão, que saudou os ouvintes às seis da manhã. Praticamente todas as locutoras da rádio encaravam o microfone pela primeira vez quando começaram a trabalhar na Fluminense e isso revolucionou a estrutura das rádios pela linguagem irreverente e ousadia informal.
Entre as locutoras da "Maldita ", se destacaram Selma Boiron, Sônia Boiron, Selma Vieira, Liliane Yusim, Edna Mayo, Cristina Oliveira, Mylena Ciribelli, Monika Venerabile, Lea Easter, Verônica Rocha, entre outras.
Com uma programação inteira dedicada ao rock, privilegiando o trabalho autoral de novos artistas, a rádio Fluminense FM era uma espécie de oásis radiofônico para uma juventude que queria algo diferente no fim da ditadura militar. Bandas boas e ruins se ouviram pela primeira vez no rádio graças as portas abertas da emissora.
Luiz Antônio Mello, em entrevista à Revista Statto, conta como foi sendo formado o acervo da rádio. “Nós abrimos a rádio pra fitas cassete, ou seja, as bandas nacionais podiam levar suas fitas cassetes e quando eram aprovadas elas entravam no ar. Essa foi a maneira de termos acervo de rock nacional que não existia na época. Produtores como o Maurício Valadares também trazia as novidades de fora do Brasil, especialmente da Inglaterra, músicas de selos e bandas de lá. Além disso, muito ouvinte levava discos raros pra rádio. Ouvintes que viajavam e colaboravam com a rádio que eles amavam ouvir. Então tivemos um grande conluio de ouvintes, produtores e nosso material pessoal”.
Entre os programas da “Maldita”, vale lembrar do "Rock Alive", “Módulo Especial" , "Espaço Aberto" , "Mack Twist" , "Rush" , "Novas Tendências", “Guitarras”, “Contracapa”, “Good Vibration”, “Clássicos do Rock”, “College Radio”, “Overdrive”, “94 pés”, “Black in Blues”, “Módulo Covardia”, “Classic Rock”, “HellRadio”, “Rock Alive”, “Madrugada Maldita”.
Numa época sem internet e, consequentemente, sem redes sociais, os artistas dependiam da influência das gravadoras para chegarem ao público. Como a maioria dos artistas que tocava rock nessa época não era contratado de nenhuma gravadora, a emissora — que sempre operou na frequência de 94,9 MHZ — tornou-se a principal voz de bandas desconhecidas e ainda formou uma geração de ouvintes ávidos por ouvir rock nas rádios.
A onda pioneira da Fluminense FM só teve relevância após se transformar numa rádio independente de “rock, blues, instrumentais brasileiros e afins”, nas palavras de Mello, que além de idealizador do conceito do projeto, é também autor do livro “A onda maldita” (1992), que motivou a diretora Tetê Mattos a realizar o documentário sobre a FM em parceria com Allan Ribeiro.
Tradicionalmente, a cultura maldita é aquela que se expressa de maneira contrária à arte comercialmente padronizada [e exibida] na mídia. Ao optar por um repertório musical de rock, blues e tendências híbridas de rock com MPB (incluindo os chamados ‘malditos’), jazz, reggae, eletrônico, lados B de compactos, gravações demo, músicas instrumentais e canções longas de rock progressivo, logo a Fluminense FM ganhou o apelido de ‘maldita’. “A cultura maldita é aquela que não é reconhecida pelo mainstream ou esquemão. Uma rádio que abre espaço para os malditos, se torna uma rádio maldita”, relembra Sergio Vasconcellos no documentário “A Maldita”, de Tetê Mattos.
Com estrutura técnica precária (a ponto de deixar chiados quando saía do ar) e operando sempre no vermelho por não veicular anúncios, os estúdios da Fluminense FM ficavam em frente à rodoviária de Niterói e a rádio não tinha luxos.
Sua equipe diminuta sofria com baixos salários e poucos recursos. Algumas apresentações realizadas no estúdio (inclusive com artistas internacionais, como Steve Hackett) não puderam sequer ser gravadas por falta de fita. Outras foram gravadas e apagadas posteriormente para que a fita fosse usada de novo. Mas ainda assim, a rádio foi a primeira a tocar músicas das bandas Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Kid Abelha, Biquini Cavadão, Blitz e de muitos outros.
Ter uma demo tocada na rádio era atestado de qualidade e todos queriam a chancela da Maldita.
A programação da Maldita era para gravar, sem locuções nem vinhetas atropelando as músicas. Cada módulo começava com uma música nacional e depois duas estrangeiras. As músicas não se repetiam de uma hora para outra nem mais de duas vezes por semana, e até o repertório de um dia diferia de outro quase que por completo.
A emissora também abriu espaço para a vanguarda paulistana. As bandas Língua de Trapo e Rumo, o cantor e compositor Arrigo Barnabé eram artistas que faziam parte da grade de programação da rádio.
A Maldita tocava uma média de 290 músicas por dia e não repetia música. Já as emissoras mais populares tocavam entre 50 e 70 músicas por dia e, muitas vezes, repetia a mesma faixa três ou quatro vezes. Mais do que tocar músicas, a emissora criou uma geração de novos ouvintes, formou plateias, impulsionou carreiras e proporcionou uma ampliação cultural. Fazer do ouvinte o grande programador musical da rádio e alavancar carreiras de artistas iniciantes foram os grandes traços de originalidades da rádio.
As centenas de cartas dos ouvintes que chegavam semanalmente incluíam agradecimentos à emissora, pedidos para que a programação tocasse mais blues, bandas como Led Zeppelin e Água Brava — este último, um grupo de hard rock que virou xodó da emissora, e que só gravou um único single, em 1983 — e também exigiam que a Fluminense FM deixasse de tocar o que eles consideravam pop.
Num curto período entre setembro de 1989 e fevereiro de 1990 a “Maldita” teve sua programação revista e alterada por Luiz Antônio Mello. Até um bom programa especializado em rock progressivo foi transmitido nas noites de quinta-feira: "Clássicos do Rock".
As promoções da Fluminense FM, não eram apenas com convites para shows. Algumas causaram tumultos reais. O engajamento desta época não era digital, mas poderia atrair uma multidão. Um dos casos mais emblemáticos envolvendo uma promoção da rádio foi numa distribuição de camisetas da banda Adam and The Ants. Num domingo aleatório, após um mês no ar, a rádio resolveu pedir aos ouvintes para encontrar o carro da emissora na praia do Arpoador. Eles deveriam levar formigas se quisessem ganhar camisetas promocionais da banda inglesa. Sem ter a mínima ideia da própria audiência, a pequena equipe da Fluminense não imaginava que centenas de pessoas carregadas de potes com os insetos chegariam no Arpoador e tentariam virar o carro para pegar as camisetas prometidas. Uma confusão generalizada.
As histórias são inúmeras. Reza a lenda que numa madrugada, Luiz Antônio Mello foi acordado por um telefonema do operador da rádio que dizia que um sujeito estava ligando insistentemente pra emissora perguntando se poderia recitar uma poesia. Mello autorizou. O sujeito passou uma hora lendo versos ao vivo no ar.
O poeta era Renato Russo, ainda anônimo na época.
Apesar da expressiva popularidade, o sinal radiofônico da Fluminense era ínfimo frente à capacidade de capilarização da sua história. Poucos lugares em Niterói e na cidade do Rio de Janeiro recebiam o sinal sem ruídos. Além disso, como já declarou Luiz Antônio Mello, “rádios ousadas não são entendidas pelo mercado publicitário que tende a ser conservador”. A partir de 1985, a emissora que já tinha muitos problemas financeiros passou a sofrer também com a concorrência das rádios Cidade e Transamérica.
Em 1990, numa tentativa de se manter no dial, a Fluminense FM se rende e torna-se uma rádio pop. Esta fase durou apenas um ano e em 1991, a emissora volta para o rock, porém em vez de seguir a linha marcante da primeira metade dos anos 80, a Fluminense FM adota um rock mais palatável e comercial.
A Fluminense FM, entre 1982 e 1984, foi a ponta-de-lança que catapultou o incipiente rock nacional autoral dos anos 80 e liderou um movimento que obrigou a concorrência a seguir de perto. Durou pouco, mas abriu o caminho para que duas rádios paulistas, a Pool FM (que se transformaria em 89 FM) e a 97 FM, de Santo André, mergulhassem fundo no rock e se tornassem referências nacionais.
Em março de 1990 a “Maldita”, sem algum nome de peso para conduzir a programação Rock, mergulha no abismo: decide virar emissora pop, mantendo o mesmo nome, para desespero e irritação de muitos. A audiência cai e começa o ceticismo dos alternativos quanto ao futuro do radialismo rock no Rio de Janeiro.
Em 1991 a “Maldita” volta ao Rock, em razão dos protestos dos ouvintes contra a programação pop da emissora. No entanto, a já ex-Maldita estava sem o pique de antes. Os programadores se prendiam demais ao Grunge e ao Rock alternativo, além de bandas de Hard Rock comerciais como o Guns'n'Roses. A “Maldita” volta dependente do playlist da MTV, a programação normal, apesar de não ser muito repetitiva em relação a qualquer FM de hit parade, era previsível demais para uma rádio alternativa.
Em 1993, A programação da “Maldita” era composta em sua boa parte por bandas do Rock australiano, como Hoodoo Gurus, Midnight Oil, Spy vs Spy e Men at Work.
Em 1994, a “Maldita” teve que trabalhar sua despedida entre agosto e setembro, num fim melancólico e apático, com baixa audiência. Em 30 de setembro de 1994, a Rádio Fluminense FM encerrava suas transmissões à meia-noite. A música de encerramento escolhida foi "The End", clássico dos The Doors.
Poucas emissoras no país prestaram um serviço tão relevante para a formação cultural da sociedade quanto a Fluminense .
Esses e outros detalhes podem ser conferidos também nos livros "A Onda Maldita" (1992), de Luiz Antonio Mello, e "Rádio Fluminense FM: a porta de entrada do Rock brasileiro nos anos 80" (2006), de Maria Estrella.
A “Maldita” esteve no ar como uma rádio alternativa entre 1982 -1994, 2001-2003 e de 2004 - 2005 como uma rádio pop-rock comercial, sendo encerrada na FM definitivamente em 2005.
Em 2012 aconteceu uma homenagem à Rádio Fluminense FM, (Maldita 3.0), através de mixtapes, apresentações de bandas da época da “Maldita” no Circo Voador e exposições dos acervos da Rádio Fluminense FM em Niterói e Rio de Janeiro.
Em 2022 surgiu o projeto autoral denominado WEB RÁDIO FLUMINENSE FM ®, uma webradio com a missão de resgatar a Rádio Fluminense FM e trazer à nova geração um pouco do que era a “Maldita”, agora com transmissão online e programação repaginada. São 24 horas no ar sem intervalos comerciais, com os clássicos da Maldita, além de novidades e raridades do mundo do Rock, Blues e underground.
A Web Rádio Fluminense FM é um projeto autoral de Paullo Barbas, dedicado à Luiz Antonio Mello (LAM), Samuel Wainer Filho (Samuca), Amaury Santos, Sérgio Vasconcellos, Maurício Valadares e a toda equipe técnica, em especial as locutoras Selma Boiron, Sônia Boiron, Selma Vieira, Liliane Yusim, Edna Mayo, Cristina Oliveira, Mylena Ciribelli, Monika Venerabile, Verônica Rocha, Débora Santos, Lea Easter, entre outras, que fizeram da Rádio Fluminense FM a nossa eterna Maldita.